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Resenha: Annarasumanara - A mágica está nos olhos de quem vê, mas vive em quem sente



Olá habitantes da Terra, como estão? Espero que estejam todos incrivelmente bem. É a Bruna falando do lado de cá e estou radioativamente animada com a resenha de hoje, na verdade estou desse jeito desde que me deparei com este mangá-não-mangá-porque-o-nome-é-manhwa.

Manhwas, para quem não sabe, são quadrinhos coreanos que podem ter partes coloridas. Decidi falar sobre um deles por simplesmente conter uma história fantástica. Vocês já tiveram a sensação de ler algo e aquilo ser tudo o que você precisava? Então, quando li Annarasumanara me senti desta forma, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a capa, ela me lembrou muitíssimo do livro O Circo da Noite (um ótimo livro por sinal) e por isso me enchi de expectativas para a leitura.

Conforme fui lendo e entendendo a situação, algo que por vezes você não conseguia compreender por ser o tipo de coisa complexa e levemente misteriosa, acabei me apegando aos personagens e suas vidas, as metáforas com o futuro brincando com as escolhas do presente. Claro, isso tudo combinado com áurea mágica da narrativa.

Annarasumanara não pode ser taxado como uma história de romance, na verdade ela vai muito além disso e por vezes nem apresenta tal coisa, pois os personagens têm muito mais a mostrar, eles precisam ser entendidos de forma completa e por isso vejo que o autor decidiu deixar cada leitor ter sua perspectiva sobre os protagonistas. Eles poderiam ser um casal? Poderiam se você desejasse. Eles poderiam ser amigos? Obviamente que sim. Eles poderiam ser entendidos com uma leitura rápida? J-A-M-A-I-S.

Vou logo adiantando que este manhwa brinca muito com a nossa sensibilidade e percepção de futuro, ele tem uma abordagem que me agrada bastante por desconstruir definições cotidianas por meio de metáforas sobre estradas e jardins floridos. Eu sou suspeita para falar sobre mágicos, metáforas e futuro por ser altamente ligada em coisas relacionadas, mas se vocês lerem vão entender o quão boa e gratificante é esta narrativa.

A obra de II-Kwon Ha conta a história de Yoon Ah-Ee, uma colegial que mora sozinha com sua irmã mais nova e tem dificuldades financeiras devido a uma série de fatores, uma das principais sendo o abandono da mãe quando eram pequenas e, logo em seguida, a fuga do pai que não tinha condições de pagar suas dívidas. Um dia Ah-Ee escuta rumores sobre um mágico vivendo num parque abandonado na cidade e, além disso, que fazia mágica de verdade. A garota não acreditava mais na magia como quando era criança, porém, ao se deparar com o homem, ela começa a se questionar sobre tudo aquilo que viu, sentiu e acreditou.





A primeira coisa que gostaria de chamar a atenção de vocês é para o parque. Quando ele aparece pela primeira vez podemos ver que, apesar de estar abandonado, existe algo dramático nos brinquedos, o que nos faz esperar ser ligado a qualquer momento. Gostando ou não, sabemos que parques têm aquela áurea alegre e gritante, mas quando o parque em questão é apresentado não temos um vislumbre daquela alegria, mas sim da melancolia, como se refletisse sentimentos. Há uma personificação do lugar, algo que faz referência ao mágico que vive por lá.

Nas vezes em que ele é iluminado, isto é, ligado, nós podemos ver que suas cores estão relacionadas às pessoas diante dele, no caso o R (mágico) e Ah-Ee. É bem divertido observar o cuidado com que II-Kwon teve ao tingi-lo de cores diferentes na capa de cada volume para que o leitor realmente entrasse na vibe proposta. A sensibilidade pela qual nós somos submetidos através do parque é tão envolvente que torcemos para ver tudo aquilo funcionando, com pessoas indo e voltando e, principalmente, com o mágico atuando.





Falar de Na Il-Deung é algo que me deixa com uma mistura de sentimentos, desde paixão até pena, mas acima de tudo compreensão. Quando vocês lerem o manhwa prestem muita atenção neste personagem. Por ele simplesmente apresentar a maior evolução durante a história, o leitor vai acompanhando todo o processo até chegar em uma parte que você se sente tão sufocado quanto o personagem.

Deung é o melhor aluno da escola e o típico filho incrivelmente perfeito com um futuro totalmente traçado para si. Ele não desrespeitava normas, tampouco as vontades dos pais, sua casa era muito, mas muito grandiosa, algo que dá certa agonia pelo traço do desenho. Ela me lembrou recortes de revistas e não é somente na morada do garoto que encontramos isso, na verdade vocês vão ver muitos capítulos com essa mistura de desenho/recorte (achei isso altamente lindo, só pra constar).

A primeira coisa que notamos ao olhar para o rapaz é o seu enorme pescoço. Confesso que quando ele apareceu eu pensei muito sobre essa característica física, não fazia muito sentido tendo todos os outros personagens normais, por assim dizer. Porém, aos poucos, conforme vamos vendo sua obsessão por ser o primeiro em tudo, por não saber receber um “não” e principalmente por não conseguir aquilo que desejava – no caso a Ah-Ee –, nós nos deparamos com a imagem que Deung tinha de si próprio e de seus pais. No entanto, não se deixem enganar apenas por isso, pois além desta visão sobre si o pescoço longo se interligava com a metáfora da estrada fria e solitária pela qual o garoto caminhava.

Antes de explicar sobre essa metáfora, preciso deixar claro que talvez vocês fiquem levemente irritados com as atitudes do colegial tanto quanto sua visão de mundo, porém não esqueçam que este olhar tinha sido desenhado por seus pais e ele, Deung, mal sabia das coisas as quais lhe davam prazer e satisfação sem recompensa alguma. Seu interesse amoroso por Ah-Ee desencadeou uma paixão muito mais forte do que o esperado, algo tendo seu início por um reconhecimento de concorrente para depois se tornar uma admiração.

A metáfora da estrada fria e solitária diz respeito às nossas ações engessadas pela cobrança da sociedade e dos pequenos grupos no qual interagimos; vocês já pararam para pensar que sua vida está sendo ditada pelas palavras de seus pais? Já pensaram que muitos dos seus desejos são os sonhos daqueles que estão ao seu redor e não os seus? É disso que se trata esta metáfora, ela discute de uma maneira linda a nossa trajetória, sendo esta:

1-  Nascer;
2-  Crescer;
3-  Estudar;
4-  Virar um universitário;
5-  Conseguir um bom emprego;
6-  Levar uma ótima vida com muito dinheiro.

Annarasumanara traz à tona nossas práticas cotidianas, nós fazemos mais coisas que não gostamos em vez de realizar aquilo que nossas almas aplaudem. Existem certas coisas que teremos de fazer por mais que isso deixe um gosto amargo na boca, porém, quase sempre, esquecemos daquilo que nos faz sorrir e vivemos em prol de ações que só aumentam a estrada feita pelas pressões sociais e familiares.

Quando é que seremos realmente felizes e gratos por isso? Esta questão é algo para se pensar e o personagem Il-Deung consegue mostrar perfeitamente isso, pois ele é o filho perfeito amaldiçoado pela estrada infinita. Alguém, independente do lugar, estará cobrando a primeira colocação dele, estará exigindo que o garoto entre na melhor universidade para se graduar em um curso prestigiado no qual a remuneração será grande. Apesar de tudo isso, alguém perguntou para o rapaz se ele desejava este tipo de vida?

A maior sacada na história deste personagem é quando ele tem ciência do seu desejo de ser um mágico e de ver um jardim florido (essa metáfora irei explicar depois). A partir deste momento Deung perde aquele pescoço gigante e aparência distorcida para conquistar a feição de um garoto normal que acabou de descobrir um dos grandes segredos da vida. A imagem daquele antigo colegial engessado se parte para a entrada de um rapaz de 17 anos que deseja pisar no freio para aproveitar a vida, para fazer não somente aquilo que é necessário como também realizar seus próprios desejos, aqueles formados pela sua própria mente.




A respeito de Yoon Ah-Ee, preciso compartilhar o quanto ela me deixou com o coração repleto de lembranças e um bocado de sonhos que gostaria de realizar. A colegial leva uma vida cheia de dificuldades, algo que interferiu na sua forma de ler o mundo e a fez perder uma coisa muito importante: seu sonho. Eu gostei muito das possíveis interpretações que podemos fazer partindo da vida, atitudes e desejos desta personagem, a relação que II-Kwon criou sobre a infância dela e aquilo que Ah-Ee perdeu ao longo do tempo foi algo lindo.

Quando somos crianças tudo aos nossos olhos é magnífico, detalhes pequenos podem não passar despercebidos por nós e, sem sombra de dúvida, não temos toda a bagagem histórica para colocar limites em nossas mentes. É graças a isso que sonhar e desejar se tornam práticas constantes, algo pelo qual não deveríamos esquecer tão rapidamente, pois gostando ou não, é nesta fase que enxergamos a beleza do mundo e desaceleramos.

Vocês devem saber sobre a falta de tempo existente no mundo, onde tudo é feito com pressa e qualquer atitude errada pode arruinar uma carreira promissora, assim como temos uma irritação crescente por poucas cosias. Nós explodimos pelo fato de termos nos tornado adultos amaldiçoados pela estrada, nós não sonhamos e muito menos permitimos que desejos da velha infância retornem por não gostarmos de pensar sobre o quão inocentes nós éramos.

A vida adulta pode assustar muitos tanto quanto pode ser agraciada por vários

Esta personagem é uma mistura do ceticismo juvenil/adulto e crença nas coisas antigas da infância. Ah-Ee é uma colegial que deseja se tornar uma adulta comum, onde ela seguirá todo o percurso criado pela sociedade e terá um futuro brilhante, ela se sacrifica para conseguir ter um pouco mais de recursos para com sua irmã, abdica de sua dignidade para ter meios de acertar toda a confusão que foi jogada sobre seus ombros e em meio a tudo isso ela vira uma descrente nos dias descomplicados e alegres.

A impressão que a história dela transmite é a de não existir esperança para voltar ao início. No entanto, quando seus caminhos começam a se entrelaçar com o do mágico – mesmo havendo uma frieza de sua parte – ela entende o tipo de pessoa que queria ser, a garota compreende o seu sonho sem deixar de fazer tudo aquilo que precisa. Entendem como o manhwa nos mostra que não existe somente o caminho engessado? Nós podemos convergir os dois se assim desejarmos.

Que tipo de adulto você gostaria de ser? Que tipo de vida você gostaria de ter?  Quais são os sonhos que você não quer deixar sumir? Quais são as correntes que te prendem na estrada? Estas são questões levantadas nesta personagem, elas fazem muito sentido depois que se tira um tempo para refleti-las.


  
Agora vamos falar do rapaz que banca o mágico num parque desativado, Ryu Min Hyuk. Quando os rumores surgem sobre ele ser um louco morando num lugar abandonado, nós, leitores, já começamos a formar uma imagem sua e as expectativas vão aumentando para conhecê-lo, porém, ao vermos pela primeira vez não sabemos exatamente como a história poderá progredir dali em diante, pois o homem de 30 anos é um adulto com alma de criança.

Estou dizendo isso pelo fato de, ao longo da narrativa, nos ser apresentado um lado incrivelmente dócil e infantil deste personagem paralelamente com seus traços dramáticos e trágicos. Toda vez que Ryu fazia uma mágica ou perguntava “Você acredita em mágica?” ficamos abismados por parecer real, por ser algo muito além da nossa compreensão. Mas não podemos esquecer das cenas em que nos era mostrado seu sufoco diante de algumas situações juntamente com as reflexões apontadas por ele.

A metáfora sobre jardins floridos provém deste personagem, onde sua vida era parecida com a de Deung tendo ele como o melhor aluno da escola, com uma vida repleta de pessoas ditando seu futuro e apostando alto em suas ações. Ninguém nunca perguntou o que Ryu realmente queria, mas antes o homem nunca tinha se importado, porém as coisas começaram a desandar quando a pressão do último ano, culminada com as cobranças dos anos anteriores, tomam as rédeas de sua vida e ele surta.

O mágico, na época do colégio, reflete sobre como os adultos são e percebe a maldição que foi lançada sobre ele, a da estrada infinita e solitária. Min Hyuk começa a ouvir vozes e conversar com pessoas não existentes, todas elas exigiam a melhor performance possível dele em qualquer ocasião e isto fez seus colegas de classe enxergarem-no como louco. Ryu não estava maluco, suas ações estranhas eram resultado de toda a pressão que o seguiu até aquele momento.

Em um determinado capítulo, quando está sendo focado na história dele, é apresentada a estrada que estava seguindo juntamente com borboletas, estas últimas significavam seus sonhos, seus desejos e principalmente a liberdade. O mágico sabia como o Deung se sentia por ter vivido a mesma coisa, porém, agora, ele estava vivendo num jardim florido onde conseguia fazer tudo aquilo que gostava com um sorriso no rosto, o rapaz não precisava ganhar nada em troca pois estava feliz por apenas viver sem exigências altas.

Ele temia se tornar um adulto engessado pelas expectativas da sociedade e de seus familiares, por isso fugiu de tudo isso encontrando seu lugar como um mágico e vivendo num parque abandonado, criando ilusões de magia e conquistando crianças com isso. A principal coisa que devem ter em mente é que Ryu Min Hyuk é um homem que decidiu manter uma alma infantil para não viver na estrada sozinho.




O manhwa, lançado em 2010, com três volumes e 27 capítulos, é tão magnífico quanto dramático por nos apresentar a época descomplicada de nossa infância comparada com a vida trágica e cética adulta. A narrativa consegue trazer metáforas lindas sobre longas estradas frias pela qual somos ensinados a seguir estudando, trabalhando, sendo reconhecidos e ganhando muito dinheiro fazendo aquilo que nós, muitas vezes, não escolhemos. Assim como traz a metáfora do jardim florido, pois é ali, naquele jardim, que se encontram nossos sonhos, desejos e a felicidade.

Nós podemos culminar tanto a estrada com o jardim, vivendo entre eles sem deixar o excesso tomar conta, pois é como eles, os personagens, disseram: “Faça aquilo que deseja tanto quanto aquilo que não gosta”. Muitas pessoas surtam por não se enquadrarem nos padrões impostos pela sociedade e família, elas se sentem sufocadas e perdem o controle, mas também existem pessoas que somente vivem em função daquilo que gostam sem ligar para as consequências do seus atos. Precisamos do equilíbrio, o manhwa diz isto para nós.

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